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terça-feira, 5 de junho de 2012

Alerta de Propaganda #20

A "avaliação" da troika permitiu-nos mais uma ocasião de teatro por parte dos marretas do costume, onde tentam convencer-nos que cima é baixo, molhado é seco e que alguém neste governo sabe o que está a fazer.

"Pedro Passos Coelho afirmou que, "no âmbito deste quarto exame regular" ao cumprimento do Programa de Assistência Económica e Financeira a Portugal, "ficou de se encontrar oportunamente um mecanismo que possa responder especificamente a alguns segmentos de desemprego".

Segundo o primeiro-ministro, esse "mecanismo" é necessário "enquanto as medidas estruturais não produzem efeitos sobre o crescimento e enquanto a própria atividade económica não oferece maiores oportunidades de emprego"."

Ou seja, não é a troika e o governo que estão a destruir a economia e o emprego... é porque todo o bom trabalho que fizeram ainda não teve tempo de dar frutos. Ao mesmo tempo, admite-se a intervenção estatal para criação de emprego. Não era só o abençoado sector privado era capaz de criar emprego? Entretanto, a troika também tem algo a dizer.

"É urgente fazer mais para melhorar o funcionamento do mercado laboral. Isto inclui reformas institucionais que deem maior flexibilidade às empresas para ajustar os custos laborais à produtividade."

Ou seja, não só estão a fazer um excelente trabalho (cujos resultados positivos estão sempre aí "ao virar da esquina") como ainda precisam de destruir mais direitos dos trabalhadores - a tal flexibilidade. A dívida, infelizmente, ainda não se sentiu muito tocada por estes esforços, como diz Gaspar:

"As nossas previsões actuais estão em linha com o objectivo para o défice orçamental em 2013 [3 por cento do PIB]. A dívida pública deverá atingir um máximo de 118% do PIB em 2013, e reduzir-se-á continuadamente anos seguintes"

Portanto, mais uma esquina a virar e a nossa economia devastada irá prontamente começar a pagar a dívida.

De esquina em esquina, até à vitória final.


segunda-feira, 21 de maio de 2012

Alerta de Propaganda #19

Um pouco por todo o lado repetem-se as ameaças à Grécia: que deve votar assim, que deve pagar assado, numa estratégia concertada de meter medo aos gregos do Apocalipse do não-pagamento da dívida extorsionária.

Desta vez até os outros parvos extorquidos pela dívida se juntaram à festa, com o Gasparzinho e o seu homólogo irlandês a darem um ar de sua graça:

"Os ministros das Finanças Vítor Gaspar e Michael Noonan disseram na reunião que "é inaceitável” que Lisboa e Dublin façam grandes esforços para cumprir as indicações da União Europeia para sanearem os respetivos orçamentos, enquanto a Grécia "quebra sistematicamente" as promessas de reformas, revelou o semanário alemão."

Coitadinhos de Gaspar e Noonan. Eles não desistem do seu dever, ao contrário dos gregos! O dever de destruir as economias de Portugal e Irlanda ao serviço dos credores e matar o seu povo à fome e miséria.

"Juncker disse ainda, segundo o Der Spiegel, que a repetição das legislativas na Grécia, a 17 de junho, "é a derradeira oportunidade" para Atenas. Se não resultar das referidas eleições a formação de um governo que cumpra as condições da União Europeia, do Banco Central Europeu e do FMI, "será o fim", terá advertido o primeiro-ministro luxemburguês."

Mais ameaças aos gregos: ou votam num governo de serviçais e lambe-botas ao estilo Passos Coelho ou é tudo corrido do euro e União Europeia. Lembremo-nos que tal era impossível, impensável e inimaginável apenas há alguns meses atrás... mas agora a dívida grega foi purgada do resto do sistema europeu e se a Grécia sair, já não é problema da Alemanha ou do sistema bancário.

"Na mesma reunião do eurogrupo, o ministro das finanças alemão, Wolfgang Schaeuble, sugeriu um referendo sobre a permanência da Grécia no euro, a realizar paralelamente às legislativas, sustenta ainda o der Spiegel."

Mas quando Papandreou, o ex-primeiro ministro, sugeriu um referendo semelhante, não era coisa de loucos? Não teve de ser retirado? Mas lá está, não veio no momento "certo". Como já vem sendo habitual nesta UE de oligarcas e tecnocratas, a democracia é só para as ocasiões... e mesmo assim, só quando o voto "certo" está assegurado.

Mas os gregos já nada têm a perder. E quem nada tem a perder, nada teme.


domingo, 6 de maio de 2012

Alerta de Propaganda #18

Para quem não leu o Suite 605, seria fácil deixar-se enganar pelas notícias vindas da zona franca da Madeira:

"(...) as 255 sociedades que cancelaram as suas licenças nos últimos três meses do ano passado tinham apresentado um lucro tributável, em 2010, superior a 1.375 milhões de euros, o que garantia a Portugal e em particular aos cofres da Madeira uma receita fiscal de IRC superior a 55 milhões de euros."

A verdade é que a "zona franca" tem um sinónimo mais comum: offshore, vulgo paraíso fiscal, vulgo baía de piratas e ladrões. E é isso que estas empresas são - não representam negócios verdadeiros, são simplesmente o veículo pelo qual grandes empresas exploram as malhas burocráticas internacionais para não pagarem impostos. De facto, são tão fictícias que centenas delas cabem numa sala de 100 metros quadrados, como exposto no Suite 605.

Quanto aos 55 milhões tributáveis, se é que é mesmo o valor real, empalidecem em comparação com o dinheiro que se perde em corrupção, sub-desenvolvimento e em verbas da União Europeia devido à inflação do PIB da Madeira, que dessa forma deixa de ser elegível para centenas de milhões de euros em ajudas de desenvolvimento.

"O relatório da SDM, empresa detida pelo Governo da Madeira (25 por cento) e pelo Grupo Pestana (75 por cento) referencia, ainda, que a saída destas empresas terá destruído mais de 800 postos de trabalho qualificados (...)"

Mais uma declaração divertida para quem leu o Suite 605. Existem dois ou três testas-de-ferro que representam todas estas empresas no papel e uma meia dúzia de advogados e bancários que tratam do resto. Onde se vão perder 800 postos de trabalho numa indústria que não existe é uma questão curiosa. Os verdadeiros beneficiados deste estado de coisas (para além de quem foge aos impostos) são as elites locais que beneficiam da corrupção e miséria dos madeirenses.

"Durante o período de análise e discussão da proposta de OE - que veio eliminar benefícios fiscais até a data consagrados - outras 44 sociedades abandonaram o CINM e, logo após a aprovação do OE, outras 211 sociedades deixaram de ter qualquer atividade associada à Madeira."

Porque estão então os ratos a fugir? A estrutura do offshore madeirense inclui um agravar progressivo das condições para os caloteiros, com uma subida modesta dos impostos em determinados anos. Modesta, mas ainda assim excessiva - porque pagar 2% quando se pode pagar 0% noutro lado? É levantar âncora e partir para a piratear noutras paragens.

domingo, 29 de abril de 2012

Alerta de Propaganda #17

O ministro narcoléptico andou de novo a dizer das suas:

"Para o ministro, esta evolução do desemprego “ilustra que a situação estrutural do mercado de trabalho antes da crise era pior do que se esperava”. Mas, afirma Gaspar, é também “um estímulo para acelerar reformas estruturais” e para criar condições para o crescimento sustentado."

Pobre Gaspar, não é culpa sua que haja desemprego. É da malvada "situação estrutural", cheia de coisas como direitos (poucos) e estabilidade (rara) e salários que davam para (sobre)viver. Não conseguem ver a lógica da criação de emprego pela austeridade e privatização? Não se preocupem, é tudo muito claro na cabeça de Gaspar.

"Vítor Gaspar salientou que, nos primeiros meses deste ano, as exportações continuaram a manter boas taxas de crescimento. “Estamos a reequilibrar as contas externas” e este ajustamento “está a ocorrer a um ritmo mais rápido do que o previsto”, assegurou. (...) A contribuir para os progressos da implementação do programa de ajuda está, segundo Vítor Gaspar, a “rápida adaptação do sector privado” – quer das famílias, quer das empresas, que ao reduzirem o consumo e o investimento, reduzem as importações e, também, o endividamento da economia."

Isto é a Estratégia do Iogurte Grego, como reparou o nosso Renato Guedes quando viu que andava aí a ser vendido em todo o lado o delicioso iogurte grego. Decidiu então o Renato dar uma espreitadela às estatísticas de consumo interno de lacticínios na Grécia... que previsivelmente tinham caído a pique. Ou seja, com a desculpa da obsessão exportadora, garantem-se as taxas de rentabilidade dos produtores e intermediários, à custa de empobrecer os trabalhadores e destruir o mercado interno grego.

Para a Grécia (e Portugal) as vantagens são nulas: o que se perde em impostos pela destruição do mercado interno fica muito longe do que se recupera com as benditas exportações e os números a esse propósito já aqui foram apresentados anteriormente. Mas que alguém, algures, se está a rir à conta disto tudo, isso deve ser certo.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Alerta de Propaganda #16

Agarrem-se bem! Van Rompuy, o presidente do Conselho Europeu (que já foi descrito como tendo o carisma dum "trapo húmido") declarou que Portugal está a fazer um óptimo trabalho, a agarrar "o touro pelos cornos" (ou seja, a destruir os direitos e as vidas dos trabalhadores).

Quando personalidades como Rompuy, Barroso ou Lagarde dizem que estamos a fazer um óptimo trabalho, é altura de nos começarmos a benzer. É clara a dissonância entre tais declarações e o piorar das vidas da larga maioria da população.

Isto explica-se facilmente: estes discursos não são para nós... são para os patrões do Rompuy.


quarta-feira, 18 de abril de 2012

Alerta de Propaganda #15

O Banco Central Europeu tem como missão principal a manutenção da estabilidade dos preços, ou seja, controlo da inflação. Excepto quando lhes toca a eles:

"But yesterday the German Daily Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ) published an article (German), that our guardians of price stability fight another good fight. The employees of the ECB want their own pensions to be inflation protected."

Ou seja, enquanto os salários e pensões dos restantes trabalhadores da zona euro não podem receber ajustes que acompanhem a inflação, os empregados do BCE abrem uma excepção quando se trata das SUAS pensões. E como é que vão atingir tal objectivo?

"For this fight to be successful ECB employees deploy a very evil institution: the central banker union IPSO. According to the FAZ article a former employee sued the ECB with the help of IPSO at European Court of Justice."

Portanto os sindicatos são malvados porque andam sempre a tentar inflacionar os salários, excepto quando o fazem para os empregados do BCE.

Faz o que eu digo...

terça-feira, 17 de abril de 2012

Alerta de Propaganda #14

Hoje temos dose dupla de hipocrisia. Para quem ainda pensa que o PS diz alguma coisa à democracia (ou à realidade), Francisco Assis tira as dúvidas durante as Jornadas Parlamentares do partido:

"(...) a Europa avançou mais quando o seu processo de construção tinha menor legitimidade democrática" e "Aliás, os pais fundadores da Comunidade Económica Europeia tinham alguma desconfiança na capacidade dos políticos nacionais darem os passos necessários a favor da construção europeia."

A Europa precisa portanto de menos Democracia (que de qualquer forma não tem neste momento) e de mais elites iluminadas, porque estas têm feito um trabalho tão bom.

Ainda nas Jornadas do PS, Alberto Martins, ex-Ministro da Justiça, disse:

"(...) os grandes problemas criminais da humanidade, os mais difíceis de combater são o narcotráfico, o terrorismo, a pirataria e o cibercrime."

O narcotráfico, cuja dimensão destrutiva foi ampliada ordens de magnitude pela chamada "guerra às drogas"? O terrorismo, cujo suposto combate criou guerras de agressão, mortes de civis e institucionalização da tortura? A pirataria, que é uma palavra de código para proteger os monopólios dos auto-proclamados defensores dos direitos de autor? O cibercrime, que é uma desculpa para destruir a liberdade de expressão e implementar censura online?

E quem julga os criminosos banqueiros, especuladores e políticos caciques que causaram a crise de 2008? Ou isso já não é crime? Se é de colarinho branco não conta como tal?

Continua:

"O Estado tem de se impor como regime superior de organização social. A democracia ganhou ao nazismo e à guerra fria, mas a democracia tem inimigos endógenos, como o populismo, a demagogia e o individualismo egocêntrico."

Quando saem destas tiradas da boca dos políticos tenho sempre curiosidade em saber de quem falam. O populismo, será o de Merkel que acusa todos os povos da Europa excepto os alemães de preguiça crónica? A demagogia, será Passos a dizer que não vai cortar subsídios? O individualismo egocêntrico, será Sócrates que foge para Paris com 300 milhões em offshores vindos de parte incerta?


domingo, 15 de abril de 2012

Alerta de Propaganda #13

Hoje não há notícias de relevo, mas fomos brindados com outro corajoso acto de lealdade ao povo português da parte de Passos Coelho, que foi mais uma vez fazer queixinhas à imprensa internacional, desta vez na brasileira Veja.

"Os desequilíbrios existentes em Portugal são resultado de más decisões tomadas por nós mesmos. Usámos mal o dinheiro, seleccionámos mal os projetos de obras públicas, aumentámos os impostos, não abrimos a economia. Os líderes europeus não agravaram os nossos problemas, pelo contrário, ajudaram-nos"

De quem está Passos Coelho a falar? Usar mal o dinheiro será uma menção à destruição da produção de Cavaco? Os projectos de obras públicas mal escolhidos, serão as estradas de Cavaco e Sócrates? Quando fala em aumentos de impostos, está a falar de si próprio? E abrir a economia, para que? Para ficarmos ainda mais expostos à globalização destruidora da produção nacional? E que ajuda europeia foi essa? Os empréstimos usurários e a imposição de austeridade que agravaram o problema da dívida?

Ou será assim uma culpa muito genérica, que talvez encaixe na rubrica "a dívida é de todos"?

"Passos Coelho confirmou ao semanário que levará adiante o programa de privatizações, citando os setores de energia, transportes, aeroportos, além dos correios e um canal de televisão como os próximos da lista."

Aqui Passos revela o seu verdadeiro papel: vendedor de bugigangas dos bens portugueses, qual Oliveira da Figueira do séc. XXI, a promover a privatização do seu país junto dos vários interessados.

"Os portugueses sentem que o Estado não foi um bom gestor de empresas. Os cidadãos também sabem que precisamos atrair dinheiro externo para movimentar a nossa economia", declarou."

O Estado não foi um bom gestor de empresas porque o Estado que temos tido TRABALHA para as empresas. Ficaria muito mal aos grandes grupos privados que o PS e PSD de facto fossem competentes na gestão pública porque depois como é que se empurrava as pessoas para o "ou-pagas-ou-te-lixas" do privado?

"Teremos de corrigir a rede assistencialista de tal modo que aqueles que realmente precisam de ajuda social possam recebê-la, sem abusos", concluiu."

E aqui temos uma facada cobarde final. O Governo desdobra-se em esforços para obrigar quem precisa do RSI ou subsídio de desemprego a fazer o pino para os receber, apenas para poupar umas dezenas de milhões de euros. Enquanto isso, se a banca precisa duma "ajuda social", as torneiras dos milhares de milhões são imediatamente abertas.

E Passos é suposto ser nosso representante?

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Alerta de Propaganda #12

O FMI tem sido extremamente útil para este Governo como ferramenta de desresponsabilização. Todas as facadas que se dá nas costas dos portugueses são logo seguidas dum encolher de ombros e um apelo à honra dos portugueses "Foi o FMI que mandou dar a facada, lamento mas temos de cumprir os nossos compromissos".

"Portugal está empenhado em fazer a sua parte, com rigor e seriedade. Sempre cumprimos com os compromissos que assumimos. Assim será, de novo", assegurou o chefe de Estado, Aníbal Cavaco Silva (...)"

"Apesar de o programa de ajuda externa terminar no primeiro semestre de 2014, o governo não vai repor os subsídios de Natal desse ano, nem mesmo parte, porque isso “daria uma imagem precipitada aos parceiros europeus e ao FMI”, diz o primeiro-ministro."

Uma imagem precipitada? Que tragédia! Melhor que os portugueses morram à fome e cuspir na Lei e Constituição que dar uma imagem precipitada. Mas o que diz o FMI?

"O estado do país é como um baralho de cartas, um pouco mais de vento e poderá fazer cair todo o castelo. Pelo menos é assim que o Fundo Monetário Internacional olha para os próximos tempos. E defende que mais austeridade só aumentará a tempestade no país: quer económica, quer social ou política."

O FMI, com longa experiência em roubar, conhece bem os limites de tolerância dos roubados antes de se revoltarem. E desengane-se quem pensa que tudo o que tem sido feito é pura vontade do FMI. Aliás, o nosso próprio Governo já disse orgulhosamente que vai além deste.

Alguém, cujo nome lamento não recordar, mencionou algo interessante sobre os memorandos com a Troika num debate sobre dívida. O de Portugal era dos mais agressivos na destruição dos direitos dos trabalhadores. O memorando com a Islândia, por exemplo, lidava quase só com questões do empréstimo em si.

A conclusão é clara. Quem está sedento da destruição da Lei e do Direito em Portugal não é o FMI mas este Governo. Apenas precisava das saias do FMI para se esconder quando o faz.


quarta-feira, 11 de abril de 2012

Alerta de Propaganda #11

A OCDE precisa de criar um grupo de apoio a alcoólicos, porque só alguém bêbado podia ter escrito o seu último relatório. Embora nem todo o texto esteja errado (as previsões de fragilidade da Itália, Reino Unido, Portugal estão em linha com a realidade), há muito mais que deixa qualquer um a coçar a mioleira:

"Enquanto Itália e França dão sinal de uma actividade económica “pouco sustentada”, a Alemanha apresenta uma “mudança positiva na dinâmica de retoma” (...) 


Para Espanha, a OCDE aponta para uma expansão, já que o indicador sobe de 101,06 para 101,17 pontos. A Grécia mantém o indicador abaixo dos 100 pontos, mas a OCDE dá sinal de uma recuperação, uma vez que se regista uma subida de 98,09 para 98,17 pontos. (...) 


A OCDE nota ainda que, nos Estados Unidos e no Japão (primeira e terceira maiores economias do mundo, respectivamente) os indicadores “continuam a mostrar fortes sinais de dinamismo”."

Então vamos lá a ver. A Alemanha está em retoma? A vida da Alemanha são as exportações para o resto da Europa. Isso foi possível enquanto houve crédito barato para a periferia comprar produtos alemães. O crédito parou e veio a austeridade. A quem vai a Alemanha vender para manter a balança comercial a crescer para o lado positivo?

E a Espanha? Os custos das suas obrigações a 10 anos não param de subir. A dívida privada e pública do país é enorme. O seu mercado imobiliário continua em queda. O governo anunciou mais dez mil milhões de euros de austeridade. Donde virá a melhoria?

E, claro, a Grécia? Por esta altura já houve tanta previsões de melhoria para a Grécia que sempre que surge uma nova devemos tomar isso como sinal de que a situação está prestes a piorar. O país continua esmagado pela dívida e agora que a austeridade comeu a carne toda, o Governo prepara-se para partir os ossos aos gregos para lhes chupar o tutano. Donde virá a retoma? Intervenção dos deuses do Olimpo?

Quanto aos Estados Unidos e Japão, o máximo que podemos esperar dos dois gigantes é que se mantenham à tona. Os Estados Unidos continuam a braços com uma economia moribunda e um Governo servil aos bancos que nada faz para retornar a justiça e ordem aos mercados. O Japão continua a braços com a crise de Fukushima, cujas consequências, caso o pior cenário se concretize, farão Chernobyl parecer uma brincadeira de crianças e transformarão metade do país num deserto irradiado.

Alguém que tire a garrafa de whisky da mão da OCDE.


sábado, 7 de abril de 2012

Alerta de Propaganda #10

É interessante ver como aquilo que é produzido pelos políticos para consumo interno não é a mesma conversa que depois se debita "lá fora". Num momento semelhante ao de Mario Draghi com o Wall Street Journal ("O modelo social europeu está morto!"), desta feita por Pedro Passos Coelho a confessar ao Die Welt, jornal alemão, que não acredita no regresso de Portugal aos mercados em 2013.

"Eu não sei se Portugal regressará aos mercados em Setembro de 2013 ou mais tarde. Naturalmente que eu quero isso mas, se por qualquer razão que não tenha a ver com a aplicação do programa, isso não funcionar, então o Fundo Monetário Internacional e a União Europeia manterão a ajuda a Portugal. Já deram garantias disso."

Primeiro, para um político confessar que "não sabe" é o mesmo que confessar que sabe mas não quer ser o portador de más notícias. Segundo, o não regresso de Portugal aos mercados nada teria a ver com a aplicação do programa de austeridade que destrói a economia do país. Obviamente, as duas coisas não possuem qualquer relação entre si. Terceiro, a Troika está pronta com o próximo "resgate".

Também é recomendada uma espreitadela no Movimento Não Pagamos, que fez uma recolha das promessas desprometidas do Governo em relação aos subsídios.


segunda-feira, 2 de abril de 2012

Alerta de Propaganda #8 e #9

A proibição do Banco Central Europeu em financiar directamente os países europeus ao serviço da obsessão alemã com a inflação e dos interesses usurários dos bancos significa que não existe nenhuma origem para a moeda usada pelos Estados excepto pelos "mercados". Quando acontece uma crise (que se torna inevitável, devido ao elevado custo do financiamento pelos mercados), deixa de haver recurso aos Estados nestas condições excepto convidar o vampiro a entrar em casa: o FMI e companhia.

Agora, conforme o falhanço espectacular do nosso país em voltar aos mercados em 2013 se torna realidade, com quase todos os índices económicos em estado zombie ou pior, vamos começar a ouvir comentários que procuram almofadar o óbvio antes deste acontecer:

"Está tudo sempre debaixo de análise e dependente da evolução de situações concretas nos mercados financeiros" mas "Não é do interesse de Portugal nem da zona euro falar agora num novo programa. Até porque isso significaria mais dívida para Portugal."

 Ou seja, eu não acredito em bruxas, mas que elas existem, isso existem.

E preparando-se para o pior, a Europa continua a reforçar estruturas de financiamento que fazem o trabalho que o BCE devia estar a fazer:

"Por sua vez, a ministra das Finanças dinamarquesa, Margrethe Vestager, disse que este "é o momento para aumentar os recursos do FMI para que se chegue a um acordo global", tendo dito que se trata de um esforço do "intresse de todos os países".

E isto já é no seguimento da fusão dos mecanismos de resgate europeus num único fundo de 700 a 800 mil milhões de euros, ou seja, há uma clara noção de que é insuficiente e vontade de criar ainda mais barreiras contra a crise para além daquelas que a Alemanha considera serem suficientes.

As primeiras gotas duma nova tempestade europeia estão a cair-nos na testa.


sexta-feira, 30 de março de 2012

Alerta de Propaganda #5, 6 e 7

Amanhã estarei na estrada o dia todo, por isso aqui fica uma dose tripla de propaganda para compensar a ausência de Jornal de dia 31 (a não ser que alguém o queira fazer por mim *pisca o olho*).

Teixeira dos Santos faz eco à palavras de John F. Kennedy "Não perguntem o que América pode fazer por vocês, mas o que vocês podem fazer pela América." com o seu inspirador discurso na Universidade do Porto:

"Compreendo a Alemanha, devo dizer, porque a Alemanha tem a percepção de que ao fim do dia serão eles que terão que pagar, mas quer garantias. Temos de perguntar não o que é que a Alemanha nos tem que dar, mas o que é que nós temos que dar aos alemães."

Este discurso de Teixeira dos Santos encapsula uma série de mentiras que circulam nos media sobre a natureza da crise. É parte da arquitectura do euro facilitar a transferência da riqueza das economias mais fracas para as mais fortes, num círculo vicioso que NÃO se auto-corrige e por isso precisa duma Alemanha responsável, disposta a partilhar com o resto da Europa as benesses dos seus privilégios. Sem essa responsabilidade alemã (cuja única preocupação se resume a este gráfico - como é possível ver estão a ser bem-sucedidos, à nossa custa), todo o sistema se desmorona, que é o que está a acontecer. Culpar os portugueses e dizer que têm de dar ainda mais à Alemanha é como mandar a conta da amolgadela no pára-choques à vítima de atropelamento.


A seguir temos Catroga a desculpar as empresas, pobres vítimas da má negociação do Estado nas parcerias público-privadas:


"(...) as empresas não têm culpa (...) foi o poder político e a Assembleia da República que deixaram acumular dívidas diferidas com as PPP. Os políticos e o Tribunal de Contas deviam ter fixado limites do tipo: 'o valor actual dos compromissos futuros não pode ultrapassar 5 por cento do Produto Interno Bruto', por exemplo."

Isto ignora que o poder político está completamente metido na cama com as empresas com que negoceia, que são sempre as mesmas. Ignora que o Tribunal de Contas está rouco de tanto falar das más contas das PPP. E o que Catroga está a querer dizer implicitamente é "ups, agora não há nada a fazer", ignorando que um Estado que não fosse uma República das Bananas utilizaria os seus poderes para renegociar as PPP. Isto é portanto Catroga a fazer-se de gente séria agora que já encheu o papo.


Finalmente, temos Mario Draghi, presidente do BCE, que num momento de fraqueza quando estava rodeado pelos serviçais do Wall Street Journal, confessou o que lhe vai mesmo na cabeça:

"“O modelo social europeu está morto!” (...) Para Mario Draghi, antigo banqueiro na Goldman Sachs e novo comandante da moeda europeia, salvar o euro terá um preço elevado. Na sua opinião, não há “escapatória” possível e vai ser preciso pôr em prática políticas muito duras de austeridade em todos os países sobre-endividados e isso implica renunciar a um modelo social baseado na segurança do emprego e numa redistribuição social generosa."

Euro über alles!