O ministro narcoléptico andou de novo a dizer das suas:
"Para o ministro, esta evolução do desemprego “ilustra que a situação estrutural do mercado de trabalho antes da crise era pior do que se esperava”. Mas, afirma Gaspar, é também “um estímulo para acelerar reformas estruturais” e para criar condições para o crescimento sustentado."
Pobre Gaspar, não é culpa sua que haja desemprego. É da malvada "situação estrutural", cheia de coisas como direitos (poucos) e estabilidade (rara) e salários que davam para (sobre)viver. Não conseguem ver a lógica da criação de emprego pela austeridade e privatização? Não se preocupem, é tudo muito claro na cabeça de Gaspar.
"Vítor Gaspar salientou que, nos primeiros meses deste ano, as exportações continuaram a manter boas taxas de crescimento. “Estamos a reequilibrar as contas externas” e este ajustamento “está a ocorrer a um ritmo mais rápido do que o previsto”, assegurou. (...) A contribuir para os progressos da implementação do programa de ajuda está, segundo Vítor Gaspar, a “rápida adaptação do sector privado” – quer das famílias, quer das empresas, que ao reduzirem o consumo e o investimento, reduzem as importações e, também, o endividamento da economia."
Isto é a Estratégia do Iogurte Grego, como reparou o nosso Renato Guedes quando viu que andava aí a ser vendido em todo o lado o delicioso iogurte grego. Decidiu então o Renato dar uma espreitadela às estatísticas de consumo interno de lacticínios na Grécia... que previsivelmente tinham caído a pique. Ou seja, com a desculpa da obsessão exportadora, garantem-se as taxas de rentabilidade dos produtores e intermediários, à custa de empobrecer os trabalhadores e destruir o mercado interno grego.
Para a Grécia (e Portugal) as vantagens são nulas: o que se perde em impostos pela destruição do mercado interno fica muito longe do que se recupera com as benditas exportações e os números a esse propósito já aqui foram apresentados anteriormente. Mas que alguém, algures, se está a rir à conta disto tudo, isso deve ser certo.

Também eu comprei um balde de litro de iogurte grego "produzido na Alemanha"... Mas expliquem-me melhor as contas e as trocas acima que não percebi :(
ResponderEliminarBom, imaginemos que um país produz 10 unidades de iogurte. 8 são consumidas internamente e 2 exportadas. Sobre as consumidas internamente, o governo cobra impostos sobre o produtor e consumidor e arrecada (imaginemos) 10 milhões.
EliminarMas agora chega uma crise e subitamente a salvação da Pátria são as exportações. O problema é que o custo de trabalho no país é demasiado alto para as exportações serem competitivas, por isso damos uma boa dose de austeridade para empobrecer as pessoas. Agora trabalham mais tempo, por menos dinheiro e com menos direitos. O custo de produção das 10 unidades de iogurte é reduzido e passa a ser possível vende-lo competitivamente no estrangeiro. Agora exportam-se 8 unidades e apenas 2 ficam no mercado interno porque não é competitivo vender cá e, para além do mais, nem sequer as pessoas consomem porque não têm dinheiro para tal.
Mas isto causa problemas ao governo do lado dos impostos. Há mais gente no olho da rua, sem emprego e portanto sem pagar impostos (pior, a receber subsídio). Não se podem cobrar impostos sobre o consumo interno porque este desapareceu. Onde antes se cobravam 10 milhões em impostos, agora só há 2. E isso nem é garantia de que o défice comercial (importar mais que exportamos) seja corrigido.
De momento, todos estes aspectos se confirmaram em Portugal (destruição do mercado interno, quebra nos impostos, continuação do défice comercial). Para se curar a doença, matou-se o paciente.
Os únicos que saem a ganhar são os grandes produtores e intermediários que criaram um mercado laboral baratucho e podem dirigir o produto para onde quer que ele dê mais lucro sem se preocupar com as consequências para as vidas das pessoas.