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| Das ruas da Grécia |
Hoje as notícias são uma não-entidade, como é habitual aos Domingos. Apenas deixo aqui o anúncio da Cáritas do aumento de 91% de novos casos de pobreza entre 2010 e 2011 e de 46.5% entre Novembro último e este Fevereiro.
Isso, e uma tradução. O blogger grego Kartesios e o desespero que toma os cidadãos comuns:
"Não tenho escrito nos últimos dias porque pensei que me ia acalmar e não praguejar. Tive esperança de que se começasse a escrever não me iria emocionar, não iria chorar como um idiota. Mas aparentemente não é possível.
Não é possível porque não é algo que me contaram mas foi algo que vivi. Ele estava a olhar-me nos olhos e disse "Vou vender o meu rim, companheiro, mas vou salvá-la." Estava zangado e decidido. Percebi que era sincero.
Ele está desempregado. Despedido. Ela, a sua esposa, é uma enfermeira de 700 euros. Encontraram-lhe cancro de mama.
Nenhum deles chegou ainda aos quarenta. Quando perguntaram nos hospitais públicos, disseram-lhes qualquer coisa sobre listas de espera para a operação e faltas de pessoal. Nos privados, o pagamento de 3.000 euros para o médico não era negociável.
Os seguros públicos nem sequer cobrem o ultra-som ao peito. Até esses 15 euros lhes estão a sair do bolso. Os seus 3 filhos estão em casa. Não aprendem nada. Ele está decidido. "Vou vender o meu rim, companheiro. Vou encontrar alguém a quem o vender."
E eu, incapaz de encontrar esses 3.000 euros para lhe dar, para ele devolver quando pudesse. Sem sequer conhecer alguém com essa quantia. Estes são os meus amigos, mas que posso fazer? Nenhum deles têm muito.
É por isso que não me apetece escrever. Porque me estou a lixar para tudo. E todos. Pelintras. Canalhas. Tanto a esquerda como a direita. Aqueles que me chamam para votar neles. Podem beijar-me o rabo.
Quanto ao direito sagrado do voto, deixem aqueles que acreditam que o voto é mais sagrado que a vida humana e a dignidade que o pratiquem. Eu não acredito que seja mais sagrado que a vida humana e a dignidade. E porque nenhum deles as defendeu como deviam, podem ir foder-se de todo.
Os partidos de esquerda no Parlamento travaram uma batalha vazia. Tudo passou. O Memorando, as medidas, os tratados e os programas de meio-termo. E os dois partidos de esquerda nem sequer são capazes de dizer bom dia um ao outro.
Hoje têm 30 deputados. O que acontecerá se se tornarem 50 ou 60? Os restantes 240 vão continuar a votar em medidas. Que medidas? Aquelas que são passadas secretamente quando a noite cai, que reduzem a comparticipação dos medicamentos de doentes do coração de 90% para 75%.
Muitas associações de médicos já estão a gritar que pensionistas pobres, desempregados e despedidos que sofrem de problemas de coração estão a por a vida em risco porque decidem por si próprios reduzir a medicação de maneira a poupá-la.
Cortam o comprimido ao meio para que a caixa dure o dobro dos dias. Estas são as batalhas elegantes do Parlamento. Palavras, palavras, palavras e depois passa tudo. Como um rolo compressor. Pessoas mortas que passam sem dar sinal.
E depois dizem-te "por favor queixa-te de forma sossegada". Não, seu imbecil. Não pode ser de forma sossegada porque tu metes ao bolso 3 ou 13 ou 30 mil só por seres um deputado de merda e há um gajo qualquer que vende um rim para salvar a mulher.
Porque devo votar em ti, seu bimbo? Para que possas dar um álibi à democracia? Toda a gente é inocente. Os seus crimes são simplesmente cancelados devido aos prazos de prescrição. E o outro gajo está a perder a esposa. O Diabo que vos carregue, não vou transaccionar com vocês. Podem enfiar a caixa de voto mais os seus resultados pelo rabo acima. Filhos da puta.
E sim, insulto a esquerda porque estava à espera que a esquerda fosse para as ruas. Não esperava nada dos fascistas de extrema-direita, nem esperava nada dos verdes aldrabões. Não foram eles que me desapontaram. Eles estavam-me opostos à partida. Agora também sou oposto à cortesã da dita cultura política. Esquerda radical e acabou-se. Saíam daqui seus palhaços. Punheteiros."

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